Suicídio

Quente ... Seco ... Escuro ...
Onde estou?
Preciso manter a concentração... Pensar, raciocinar...
Tudo acontece tão rápido... O cheiro forte de vodka continua impregnando minha camisa, mas não me sinto mal, exceto pela tontura...
Preciso matar alguém.
O pensamento me atinge como um soco. Engulo um pouco de saliva e sinto minha garganta secar novamente. Preciso beber alguma coisa rápido.
Matar...
O calor está me sufocando e a falta de ar começa a me deixar em pânico...
Preciso de uma dose... Agora...
Sinto o chão girar e quase perco o equilíbrio. Minhas mãos tremem, quase não dá para me controlar. Estou perdendo a consciência...
Não! Não... Não... Não...
Não consigo encontrar mais forças para resistir. o que quer que esteja sentindo, é mais forte do que eu. Tomado por impulso, um impulso suicida, não sei bem por quê.
Só um impulso.
jogo meu corpo do parapeito sobre a rua lá embaixo.
Sétimo andar.
Queda livre. Nenhum toldo, nenhuma proteção.
Lembro que levei menos de um segundo para chegar até a calçada. Aquele frio na barriga, o vento no rosto, a aceleração. Atinjo o chão como um saco de batatas, em um baque seco e surdo, a não ser pelo som dos ossos estalando como gravetos.
Mas é madrugada e ninguém me vê; ninguém escuta minha queda.
Apenas a lua cheia.
À noite, madrugada... A cidade inteira dorme.
Inteira?
Não.
Há um pequeno grupo de pessoas que não estão dormindo. Elas nunca adormecem. A noite é toda delas.
Nossa.
Prefiro não pensar nisso agora... Não pensar nisso...
Não é a queda que mata - dizem - Mas a súbita parada no final.
Uma descrição da minha última tentativa de suicídio.

